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O seguro do trânsito que ninguém contrata

O SPVAT reembolsa até R$ 5 mil de despesas médicas da vítima, sem apólice em nome dela e sem advogado no pedido.

Muleta de alumínio encostada no meio-fio de uma faixa de pedestres molhada.

O SPVAT cobre até quem não contratou

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A frase de quem sai do pronto-socorro com a perna imobilizada costuma ser esta: "Não tenho seguro nenhum, então a fisioterapia sai do meu bolso." Sai do bolso só se a pessoa quiser. Toda vítima de acidente de trânsito no Brasil tem um seguro que ela nunca assinou: o SPVAT, o Seguro Obrigatório para Proteção de Vítimas de Acidentes de Trânsito.

O ciclista atingido por uma moto numa esquina de Campinas passa três semanas sem trabalhar. A clínica de fisioterapia cobra a sessão, a farmácia cobra a tornozeleira, o ortopedista cobra a consulta de retorno. Ele paga tudo e guarda os papéis numa gaveta, sem saber que existe dinheiro público reservado para aquele gasto.

O motivo do engano é o nome da palavra seguro. Para a maioria das pessoas, seguro é contrato: alguém assina, paga a mensalidade e recebe a apólice (o documento que prova a contratação). O SPVAT funciona por outra lógica. Ele protege a vítima, e a vítima não precisa ter assinado nada.

Pedestre, passageiro de ônibus, garupa de moto, motorista do carro batido, criança no banco de trás: todos entram. Não importa quem causou o acidente, se o veículo tinha documento em dia ou se a vítima sabe a placa do carro que a atingiu.

A cobertura de despesas médicas devolve até R$ 5 mil por vítima. Entram consulta, exame, remédio, órtese (o aparelho que apoia o membro lesionado, como a tala e a bota imobilizadora), prótese e sessão de fisioterapia, desde que o gasto não tenha sido pago pelo SUS nem por plano de saúde.

O pedido também dispensa intermediário. A vítima, ou um parente dela, faz tudo pelo aplicativo ou pelo site da Caixa, que administra o fundo. Advogado, despachante e empresa que promete agilizar o processo cobram uma fatia da indenização por um serviço que o próprio aplicativo entrega de graça.

A faixa I abre a lei que criou o seguro e mostra quem ela protege.

Continue lendo ↓

 
 

I  Leitura de Apólice

A lei que protege quem não assinou nada

O SPVAT nasceu da Lei Complementar 207, de 2024, e cobre qualquer vítima de acidente com veículo automotor de via terrestre, com ou sem culpa, com ou sem apólice.

Durante mais de cinquenta anos, o seguro obrigatório do trânsito se chamou DPVAT (Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre). Um consórcio de seguradoras privadas, a Seguradora Líder, administrou o dinheiro até 2020. A partir de 2021, a Caixa assumiu a gestão de forma provisória, e o Congresso passou a discutir um modelo novo.

O modelo novo veio em maio de 2024. A Lei Complementar 207 criou o SPVAT e entregou à Caixa Econômica Federal a administração de um fundo público, alimentado pela taxa anual cobrada junto com o licenciamento do veículo. O artigo que define a cobertura descreve assim o alcance do seguro:

"O SPVAT tem por finalidade garantir indenizações por danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas transportadas ou não."

Lei Complementar 207, artigo 3º, 2024.

A expressão "transportadas ou não" carrega a regra inteira. Transportada é quem estava dentro do veículo, como motorista e passageiro. Não transportada é quem estava fora, como o pedestre e o ciclista. Os dois grupos recebem pela mesma tabela.

O que o SPVAT cobre

A lei lista cinco coberturas. A indenização por morte vai para os herdeiros. A indenização por invalidez permanente, total ou parcial, varia pelo grau da sequela. O reembolso de despesas médicas e suplementares tem teto de R$ 5 mil por vítima.

As outras duas são novidade da lei de 2024. Os serviços funerários passam a ser reembolsados à família, e a reabilitação profissional (o treinamento para quem precisa mudar de ofício por causa da lesão) passa a contar com cobertura própria.

O que fica fora

Acidente sem veículo automotor não entra. Queda de bicicleta sozinha, tombo de patinete sem motor e escorregão na calçada ficam fora. Acidente com trem, avião e barco também, porque a lei trata só da via terrestre para veículos de rodas com motor.

Dano material nunca entrou. O para-choque amassado, o celular quebrado e a bicicleta retorcida continuam por conta de quem causou o acidente ou do seguro de automóvel dele. O SPVAT paga pelo corpo da vítima.

Uma ressalva de calendário: no fim de 2024, a Lei Complementar 211 suspendeu a cobrança da taxa anual. Antes de juntar os papéis, confira no site da Caixa se o pedido segue aberto para acidentes da data do seu, porque a regra de transição define qual lei vale para cada ocorrência.

 
 

II  Regra de Bolso

Como pedir os R$ 5 mil sem pagar comissão

O pedido de reembolso sai pelo aplicativo da Caixa, em nome da própria vítima, e não exige advogado, despachante nem boletim assinado por terceiro.

A Caixa organizou o atendimento para dispensar papel físico. O aplicativo do SPVAT recebe foto dos documentos, acompanha o andamento e informa o valor aprovado. Quem não tem celular com câmera pode abrir o pedido numa agência, com os documentos em mãos.

O passo a passo

Antes de abrir o pedido, separe o que a Caixa vai conferir:

1. Documento de identidade e CPF da vítima, e comprovante de residência atualizado.

2. Registro do acidente: boletim de ocorrência da polícia ou registro feito pelo atendimento de emergência que socorreu a vítima.

3. Relatório do médico que atendeu, com o diagnóstico e o tratamento indicado, de preferência com o código da doença na classificação internacional (o CID, a sigla que resume a lesão em letra e número).

4. Os comprovantes de cada gasto, organizados por data, com o nome do serviço e o valor pago.

5. Dados de uma conta bancária em nome da vítima, onde o reembolso será depositado.

Quem pode pedir

A própria vítima pede. Se ela for menor de idade, pede o responsável legal. Se estiver internada ou sem condição de usar o celular, um parente próximo abre o processo com uma procuração simples, sem advogado envolvido.

O hospital particular às vezes oferece fazer o pedido em nome do paciente e ficar com o reembolso. A lei não proíbe o acerto, mas a vítima só deve aceitar se o hospital descontar o valor inteiro da conta dela.

O intermediário que custa caro

Nas portas dos hospitais, circulam cartões de escritórios que prometem "liberar o seguro do acidente". Eles pedem procuração ampla (o documento que autoriza o escritório a agir e receber em nome da vítima) e ficam com uma porcentagem do valor pago, descontada antes do depósito chegar à conta.

A Caixa repete o aviso na página do SPVAT: o pedido é gratuito, sem taxa de abertura e sem intermediário obrigatório. Se alguém cobrar para protocolar, a vítima pode recusar e fazer o mesmo pedido sozinha, com os mesmos papéis.

 

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III  Placar do Sinistro

Três acidentes, três reembolsos

Os três casos abaixo são composições montadas sobre situações frequentes de vítimas de trânsito. As pessoas não têm nome porque não são reais; os valores são ilustrativos e os desfechos seguem a Lei Complementar 207 e as orientações da Caixa.

Caso A. Uma pedestre de Salvador foi atingida por um carro que fugiu sem prestar socorro. Ela não sabia a placa. Gastou R$ 2.300 com consultas, bota imobilizadora e doze sessões de fisioterapia. Abriu o pedido pelo aplicativo com o boletim de ocorrência e recebeu o valor integral, porque o SPVAT não depende de identificar o veículo.

Caso B. Um garupa de moto em Londrina quebrou o punho e gastou R$ 6.800 com cirurgia em hospital particular e placa de titânio. O SPVAT devolveu R$ 5 mil, o teto da cobertura. Os R$ 1.800 restantes ele cobrou do motorista que causou o acidente, na Justiça comum.

Caso C. Um motorista de aplicativo em Porto Alegre assinou procuração com um escritório na saída do pronto-socorro. Recebeu R$ 3.100 de reembolso e entregou R$ 930 de comissão. Descobriu depois que o aplicativo da Caixa aceitava o mesmo pedido, sem custo, com os mesmos papéis.

O que o placar mostra

Nos três casos, o SPVAT pagou. A culpa pelo acidente, a placa do carro e a existência de um seguro particular não mudaram o direito de ninguém. O que mudou foi quanto dinheiro chegou à conta da vítima.

O limite de R$ 5 mil é por vítima, somando todas as despesas do mesmo acidente. Quem gasta mais pode buscar o valor restante com o causador do acidente ou com o seguro de automóvel dele, pela cobertura de danos corporais a terceiros.

O prazo também pesa. Comprovante de farmácia desbota, recibo de fisioterapia se perde na mudança, e o relatório médico fica mais difícil de conseguir quando o ortopedista já deu alta. Quem abre o pedido ainda em tratamento reúne os papéis com a memória fresca e pode completar a pasta a cada nova sessão paga.

A comissão é o único gasto evitável. Ela some quando a própria vítima abre o pedido, com os comprovantes guardados desde o primeiro atendimento.

O SPVAT, criado pela Lei Complementar 207 e administrado pela Caixa, devolve até R$ 5 mil de despesas médicas a qualquer vítima de trânsito, sem apólice e sem intermediário.

"Se você fosse atropelado hoje à tarde, saberia onde pedir o reembolso da fisioterapia?"

Confira agora, antes de precisar:

1. Aplicativo SPVAT da Caixa instalado no celular, com login testado pelo CPF.

2. Pasta física ou digital com espaço para boletim, relatório médico e comprovantes de gasto.

3. Conta bancária em seu nome, ativa, para receber o depósito do reembolso.

 
 
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