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A perna quebrada em Bariloche que a apólice não paga

A apólice básica de viagem exclui esqui, mergulho e trilha em altitude, e a cobertura só existe com adicional contratado antes do embarque.

Bilhete de seguro viagem sobre a mesa com botas de esqui e óculos de neve ao lado.

O adicional de aventura decide quem paga o resgate

 

"Comprei o seguro viagem, então esquiar está coberto." A frase foi dita no balcão de aluguel de equipamento, em Bariloche. No terceiro dia de pista, uma queda rendeu fratura de tíbia, resgate motorizado até a base, tomografia e cirurgia com placa. A conta hospitalar fechou o equivalente a R$ 62 mil. A seguradora abriu o processo, pediu o boletim da estação e recusou o reembolso por escrito em nove dias.

A recusa não veio por falta de cobertura médica. O bilhete tinha USD 60 mil de despesa médica hospitalar, valor mais que suficiente para o caso. Veio por causa da origem do acidente: a lesão nasceu da prática de esqui, e o esqui estava na lista de riscos excluídos das condições gerais, ao lado de mergulho autônomo, montanhismo, parapente, rafting e trilha acima de determinada altitude.

O seguro viagem cobre o imprevisto do viajante comum: a virose, a apendicite, o tombo na calçada molhada, a mala extraviada, o voo cancelado. Assim que o viajante escolhe uma atividade com risco maior por vontade própria, o produto básico sai de cena, porque esse risco não entrou no cálculo do prêmio que ele pagou.

Existe cobertura para quem esquia, mergulha e sobe montanha. Ela mora num adicional com nome próprio, cobrado à parte, com limite próprio e uma exigência de calendário que derruba quase todo mundo: precisa estar contratado antes do embarque. Comprado no meio da viagem, o adicional vale para os dias seguintes e nunca para o acidente já ocorrido.

O detalhe que mais custa dinheiro é o limite. Muita gente contrata o adicional e acredita que ele libera o teto inteiro da despesa médica do bilhete. Na maioria dos produtos vendidos no Brasil, o adicional carrega um capital segurado próprio, bem menor que o principal, e é dentro dele que a conta do resgate na montanha precisa caber.

Onde a exclusão está escrita, como comprar o adicional sem cair na armadilha do prazo e o que acontece em três viagens idênticas abre a leitura de hoje.

Continue lendo ↓

 
 

I  Leitura de Apólice

Onde a apólice escreve que esqui não entra

A atividade que o viajante escolhe muda quem paga a conta.

A exclusão de esporte de aventura não aparece na tela da cotação nem no email de confirmação, ela vive nas condições gerais do produto, no capítulo de riscos excluídos.

O documento que vale é o condicional registrado na Susep, e ele chega ao comprador como PDF anexo ou link no rodapé do email. O bilhete resumido que a maioria guarda no celular traz apenas os capitais segurados: despesa médica, bagagem, cancelamento. Os limites aparecem, as exclusões ficam no anexo.

No capítulo de riscos excluídos a redação costuma ser genérica na abertura e específica na lista. A abertura fala em prática de esportes profissionais ou amadores de alto risco. A lista nomeia: esqui e snowboard, mergulho com equipamento autônomo, escalada, montanhismo, alpinismo, parapente, asa delta, paraquedismo, rafting, canyoning, bungee jump e caminhada acima de altitudes que variam entre 2.500 e 4.500 metros.

Altitude é a exclusão mais silenciosa da lista. O viajante que compra pacote de trekking no Peru raramente lê a viagem como esporte de risco, e passa quatro dias andando acima dos 4.000 metros. Um mal da altitude que exija descida assistida e internação entra na mesma vala do esqui.

O que o regulador exige que esteja escrito

A Susep obriga a seguradora a listar as exclusões no condicional registrado e a entregá-lo ao segurado. A obrigação vale para o texto, não para o destaque: a lista pode estar na página 14 de um PDF de 30, e o produto segue regular.

Mergulho tem uma camada extra. Vários produtos cobrem o mergulho recreativo até 30 metros com instrutor credenciado e excluem tudo abaixo dessa profundidade, além de excluir sempre o mergulho em caverna e o mergulho técnico. A câmara hiperbárica, o tratamento mais caro de um acidente de descompressão, tem limite destacado no adicional.

A recusa por esporte de aventura raramente é discutível no reembolso, porque ela não depende de interpretação: a seguradora pede o boletim da estação, da operadora de mergulho ou da agência de trekking, e o próprio documento prova a atividade que gerou a lesão.

Existe uma armadilha de vocabulário na cotação. O comparador mostra selos do tipo cobertura para prática esportiva, e o selo cobre esporte recreativo sem risco agravado: corrida, futebol na praia, bicicleta em ciclovia. Esqui, mergulho e altitude só entram pelo adicional pago.

"O segurado perderá o direito à garantia se agravar intencionalmente o risco objeto do contrato."

Código Civil, Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002, artigo 768.

O artigo explica a lógica do produto inteiro. Quem calça um esqui aumenta de propósito a chance de fratura, e a seguradora só assume esse aumento se tiver sido avisada e paga por ele. Avisar, no contrato, significa contratar o adicional com o nome da atividade dentro dele.

 
 

II  Regra de Bolso

Como contratar o adicional sem perder o prazo

A cobertura de esporte de aventura é um adicional com prêmio próprio e capital próprio, e a única janela para comprá-lo se fecha no momento em que o viajante embarca.

O corte de calendário é a parte que gera mais reclamação. A seguradora vincula o início da vigência à data de embarque informada na proposta, e um adicional comprado depois entra com vigência a partir da contratação, sem alcançar o acidente já ocorrido. Não existe retroatividade no seguro viagem.

1. Liste as atividades da viagem por nome, incluindo a que parece inofensiva: aula de esqui para iniciante, batismo de mergulho, passeio de quadriciclo, tirolesa no parque, trilha guiada com pernoite.

2. Abra o condicional do produto cotado, procure o capítulo de riscos excluídos e confira quais atividades da sua lista aparecem lá. O PDF costuma vir no email de cotação, e o corretor é obrigado a mandar quando pedido.

3. Peça a cotação do adicional de esportes de aventura com as atividades nomeadas na proposta, e exija por email o capital segurado dele em dólar ou em euro, separado do capital de despesa médica do bilhete principal.

4. Confira se o adicional cobre resgate em montanha, transporte por helicóptero, câmara hiperbárica e translado médico entre hospitais, porque são as três contas que estouram qualquer limite pequeno.

5. Contrate e guarde o comprovante com a data anterior à do embarque, e confira no bilhete emitido se o adicional aparece na relação de coberturas, com o limite ao lado.

Por que o adicional custa pouco e é esquecido

O prêmio do adicional em viagem curta costuma somar poucas dezenas de reais, e some no meio de um pacote de passagem, hotel e diária de equipamento. Quem cota por preço final no comparador marca a opção alguns reais abaixo e embarca convencido de estar coberto.

A viagem de neve concentra o problema porque o esqui já vem embutido no pacote. O viajante compra a diária da estação, a aula e o aluguel do equipamento na mesma reserva, e conclui que o seguro exigido para entrar no país cobre a atividade principal.

A regra de bolso do dia cabe em uma linha: se a viagem tem uma atividade que exige capacete, cilindro ou guia, a apólice básica não basta e o adicional precisa estar comprado com o comprovante datado antes do voo.

 

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III  Placar do Sinistro

Três viagens, três respostas da seguradora

Viagem A. Bilhete básico com USD 60 mil de despesa médica, sem adicional. Fratura de tíbia esquiando, resgate na pista, cirurgia com placa, conta de R$ 62 mil. A seguradora nega o reembolso integral com base no capítulo de riscos excluídos, e o hospital cobra o cartão de crédito deixado como caução na internação.

Viagem B. Mesmo bilhete, mesmo acidente, com adicional de esportes de aventura contratado dois dias antes do embarque, capital de USD 15 mil. A seguradora paga o resgate, a cirurgia e a internação até o teto do adicional, cerca de R$ 81 mil pelo câmbio do período, e a conta de R$ 62 mil cabe inteira dentro dele.

Viagem C. Mesmo bilhete, adicional contratado pelo aplicativo na manhã seguinte à queda, com a perna já imobilizada. A vigência começa na contratação, o acidente ficou do lado de fora, e a negativa sai idêntica à da viagem A.

As três apólices vieram da mesma seguradora, com o mesmo capital médico e o mesmo hospital argentino. O que muda o desfecho é a existência do adicional e a data em que ele foi comprado.

Existe uma quarta situação, comum em trekking: o adicional contratado com limite baixo, de USD 5 mil, num roteiro acima de 4.000 metros. O resgate por helicóptero consome o limite antes da internação, e o viajante paga a parte hospitalar sozinho.

"A apólice ou o bilhete de seguro serão nominativos, à ordem ou ao portador, e mencionarão os riscos assumidos, o início e o fim de sua validade, o limite da garantia e o prêmio devido."

Código Civil, Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002, artigo 760.

O artigo é a base do pedido que o viajante faz ao corretor. Riscos assumidos e limite da garantia estão no papel por obrigação legal, e o segurado tem direito de ler os dois. Um bilhete que não nomeia esqui, mergulho ou altitude entre os riscos assumidos não os assumiu.

O que fazer com o bilhete ainda hoje

1. Abra o email de compra do seu seguro viagem e localize o link ou anexo das condições gerais, o documento longo que quase ninguém baixa.

2. Busque no PDF a palavra excluídos e leia a lista inteira comparando com o roteiro que você comprou, atividade por atividade.

3. Procure no bilhete a linha do adicional de esportes de aventura e anote o capital segurado dele em moeda estrangeira, separado do capital de despesa médica.

4. Confirme com o corretor por email se resgate em montanha, helicóptero e câmara hiperbárica estão dentro do adicional, e peça a resposta por escrito.

5. Se a viagem já está paga e o adicional não existe, contrate agora, com a data do comprovante anterior ao embarque, e guarde o email de confirmação junto do cartão de embarque.

Bilhete de seguro viagem sem adicional de aventura não é um bilhete incompleto, é um contrato que cobre outra viagem: a do turista que anda, come e dorme, e nunca a do turista que desce a montanha com equipamento nos pés.

"Se você caísse amanhã na pista, o seu bilhete nomeia o esqui entre os riscos assumidos?"

Confira ainda hoje: se o adicional de esportes de aventura aparece no bilhete emitido, qual o capital segurado dele em dólar, e qual a data do comprovante de contratação comparada com a data do seu embarque.

 
 

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Quiz da edição

No seguro viagem, o que faz a cobertura de esqui existir na sua apólice?

AO capital de despesa médica ser alto o bastante para a cirurgia
BO adicional de esportes de aventura contratado antes do embarque
CA compra do seguro em qualquer data anterior ao acidente
DO destino exigir seguro viagem para liberar a entrada

Defenda seu título de Vigia (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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