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ED 008

A perda total paga a tabela do dia da batida

A indenização segue a tabela de referência do dia do sinistro corrigida por um fator de ajuste, e o saldo do financiamento leva a diferença.

Uma chave de carro com controle pousada sobre um documento de veículo dobrado e um retrovisor solto, numa mesa clara.

A chave e o documento depois da perda total

 

No pátio da oficina credenciada, o carro parado já tem um número decidido em outro lugar. O orçamento de reparo fechou em R$ 61.400, e o valor que a apólice usa como referência naquela data é R$ 78.400. A divisão dá 78%, três pontos acima da régua que transforma conserto em pagamento.

O limite de 75% aparece em quase toda apólice de automóvel vendida no país. Quando o prejuízo de um mesmo sinistro alcança ou passa três quartos do valor contratado, a seguradora para de orçar peça e passa a indenizar. O carro vira salvado, sai do seu nome e segue para leilão.

O que quase ninguém confere antes da batida é a origem daquele valor de referência. Ele ignora a nota fiscal, o tamanho da entrada que você deu e a soma das parcelas já pagas ao banco.

É uma tabela pública de preço médio, consultada na data do sinistro, multiplicada por um percentual escrito na sua proposta. O percentual tem nome técnico e mora numa linha só: fator de ajuste.

A cotação dessa tabela sobe e desce todo mês, e a apólice acompanha o movimento sem avisar ninguém. Quem bateu em janeiro e quem bateu em dezembro do mesmo ano recebem valores diferentes pelo mesmo modelo, com a mesma quilometragem e a mesma cobertura.

Ele aparece na apólice como 100%, 95%, 105% ou 110% do valor da tabela, e você escolheu o número no dia da contratação, mesmo sem lembrar de ter escolhido. Cinco pontos ali valem alguns milhares de reais no dia do pagamento.

A conta fica mais dura quando o carro ainda tem financiamento em aberto. A seguradora não deposita na sua conta primeiro. Ela quita o saldo devedor com o banco que consta como credor fiduciário no documento do veículo, e você recebe a sobra, quando existe sobra.

A leitura de hoje começa na página da apólice onde essas três informações moram juntas: a tabela de referência, o fator de ajuste e a data que vale para a consulta.

Continue lendo ↓

 
 

I  Leitura de Apólice

Onde a apólice escreve o preço do carro

Veja em que linha da apólice mora o preço do seu carro, e qual data decide o número.

A apólice guarda o preço do seu carro numa cláusula de duas linhas, e ela não cita a nota fiscal. Cita uma tabela de referência de mercado, um percentual de ajuste e uma data: a do sinistro.

Duas formas de contratação dividem o mercado. Valor de mercado referenciado é o padrão de praticamente todo carro usado, e a indenização segue a cotação da tabela no dia da batida, corrigida pelo fator escolhido na proposta.

Valor determinado é o desenho oposto. O número fica cravado na apólice desde a contratação, sem depender de tabela mensal, e costuma ser usado em carro de coleção, importado sem cotação e frota com contrato próprio. O prêmio sai mais alto e o número precisa ser rediscutido a cada renovação.

O fator de ajuste é a parte que passa despercebida. Um contrato a 100% paga a tabela cheia. A 95%, paga cinco pontos a menos, e o desconto no prêmio mensal costuma caber num lanche. Sobre uma referência de R$ 78.400, esses cinco pontos são R$ 3.920 a menos na hora de receber.

A data também é cláusula. A tabela de referência muda todo mês, e a consulta que vale é a do dia do sinistro, nunca a do dia da contratação nem a do dia em que o processo terminou. Um carro popular perde entre 0,8% e 1,2% do valor a cada mês que passa.

A régua que separa conserto de pagamento

Abaixo dos 75%, a seguradora conserta o carro e cobra a franquia combinada na proposta. Acima da régua, ela paga o valor de indenização e não cobra franquia nenhuma, porque não existe reparo para dividir com você.

Quem espera abatimento de franquia na perda total está lendo a cláusula errada, e quem espera receber o preço pago na concessionária está lendo o contrato de compra, não o de seguro.

"A indenização não pode ultrapassar o valor do interesse segurado no momento do sinistro, e, em hipótese alguma, o valor da coisa segurada."

Código Civil brasileiro, Lei 10.406, 2002, artigo 781.

O texto legal explica o desenho inteiro. O que a apólice protege é o interesse no momento do sinistro, e esse momento é o da batida, com a depreciação de todos os meses anteriores já embutida no número.

A apólice não devolve o carro que você comprou. Ela devolve o valor que a tabela dava ao carro no dia em que ele parou.

Depois da decisão vem a papelada, e ela tem relógio próprio. A regulação do sinistro corre em até trinta dias contados da entrega do último documento pedido, e a contagem só começa quando a lista está completa.

A lista costuma pedir certificado de registro, documento de transferência assinado, chave reserva, manual e certidão de débitos zerada. Multa, IPVA e licenciamento em aberto seguram o pagamento, porque o salvado precisa sair limpo do seu nome antes do leilão.

 
 

II  Regra de Bolso

A conta de dois minutos antes de renovar

Consulte a tabela do seu carro hoje, multiplique pelo fator de ajuste da apólice e subtraia o saldo devedor do financiamento. Se o resultado der negativo, esse é o valor que você continuaria devendo por um carro que não existe mais.

O primeiro número é público e leva um minuto. A consulta da tabela FIPE é gratuita no site da fundação, pede marca, modelo e ano, e devolve a cotação do mês corrente em preço médio de venda.

O segundo está na sua apólice, na mesma linha que descreve a cobertura de casco. Ele aparece como percentual, quase sempre colado à expressão valor de mercado referenciado.

O terceiro vem do banco, e não é a soma das parcelas que faltam. É o valor de quitação antecipada, com os juros futuros abatidos, e a instituição é obrigada a informar quando o cliente pede pelo aplicativo ou pela central.

Com os três em mãos, a conta fecha sozinha. Uma referência de R$ 78.400 a 100% dá R$ 78.400 de indenização, e um saldo devedor de R$ 71.900 deixa R$ 6.500 na sua conta. O mesmo carro contratado a 95% deixa R$ 2.580.

A distância entre a dívida e a tabela tem explicação de calendário. O financiamento amortiza devagar no começo, porque a parcela inicial é quase toda juro, enquanto o carro deprecia rápido desde a primeira semana de uso.

Entrada baixa e prazo longo esticam o período em que a dívida corre acima do valor do veículo. Com 10% de entrada em 60 meses, esse intervalo costuma durar de dezoito a trinta meses.

Cinco linhas da apólice antes de renovar

1. O tipo de contratação. Valor de mercado referenciado ou valor determinado: a primeira expressão da cláusula decide se a sua indenização depende de uma tabela que muda todo mês.

2. O fator de ajuste. Confira se está em 100% ou abaixo, e peça a cotação do mesmo contrato a 105% e a 110% antes de aceitar a renovação automática.

3. A tabela usada como referência. Quase todas as apólices usam a FIPE, e o nome da publicação precisa estar escrito, junto da regra de qual mês vale.

4. A data de referência. Data do sinistro é o padrão do mercado, e qualquer redação apontando para outra data merece uma pergunta ao corretor antes da assinatura.

5. A cláusula de credor fiduciário. Enquanto existir financiamento, o banco recebe primeiro, e o beneficiário do pagamento não é quem dirige o carro.

Subir o fator de ajuste custa pouco perto do que ele resolve. A diferença de prêmio entre 100% e 110% costuma ficar na casa de um dígito percentual do valor anual, e devolve dez pontos de tabela no pior dia possível.

Carro novo tem ainda outro caminho. A cobertura de reposição por veículo zero quilômetro entrega um modelo equivalente de fábrica em vez do valor de tabela, vale por um prazo curto de vida do carro e desaparece depois dele.

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III  Placar do Sinistro

Três batidas e o mesmo carro

Batida 1. Carro comprado por R$ 92.000 na concessionária, apólice a 100% do valor de mercado referenciado, colisão no vigésimo segundo mês. A tabela do mês marcava R$ 78.400, o saldo devedor estava em R$ 71.900, e a conta do cliente recebeu R$ 6.500.

Batida 2. Mesmo carro, mesma colisão, apólice fechada a 95% para economizar R$ 22 por mês no prêmio. A indenização caiu para R$ 74.480, o banco recebeu os mesmos R$ 71.900, e sobraram R$ 2.580 para o cliente.

Batida 3. Mesmo carro com 10% de entrada em 60 meses, colisão no décimo mês. A tabela dava R$ 84.100, a quitação antecipada estava em R$ 88.700, e o processo terminou com o cliente devendo R$ 4.600 ao banco, sem carro na garagem.

A batida 2 mostra o preço da economia miúda. Doze meses de desconto somavam R$ 264 no prêmio, e a diferença na indenização foi de R$ 3.920, quinze vezes o valor poupado no caminho.

A batida 3 é a mais comum nos primeiros dois anos de financiamento. A apólice funcionou, o pagamento saiu no prazo, e mesmo assim ficou dívida, porque o contrato de crédito andava mais devagar que a depreciação do veículo.

O que fazer antes da próxima parcela

1. Hoje: abra o PDF da apólice e procure a expressão valor de mercado referenciado. O percentual ao lado dela é o seu fator de ajuste, e ele vale para o dia da batida.

2. No site da FIPE: consulte a cotação do seu modelo, ano e versão, e anote o número do mês corrente num lugar que você reencontre.

3. No banco: peça o valor de quitação antecipada do financiamento por escrito, pelo aplicativo ou pela central de atendimento.

4. Na conta: multiplique a tabela pelo fator, subtraia a quitação e olhe apenas o sinal do resultado. Negativo é dívida que sobreviveria ao carro.

5. Na renovação: com resultado negativo, cote o mesmo contrato a 110% e compare o prêmio antes de repetir a apólice do ano passado.

O padrão das três batidas é um só. A apólice paga o que a cláusula mandou pagar, e a cláusula foi escrita meses antes da batida.

A parcela que vence neste mês carrega juro, seguro e uma promessa de valor. As duas primeiras aparecem no boleto. A terceira está numa cláusula de duas linhas, e ela decide quanto sobra quando o carro não voltar da oficina.

Conferir o fator de ajuste da apólice leva dois minutos, e é o trabalho mais barato que existe antes de assinar qualquer renovação.

"Se o carro parasse hoje, quanto sobraria depois que o banco recebesse?"

 
 
Quiz da edição

Na perda total de um carro, qual valor a seguradora usa como base da indenização?

AO preço pago na concessionária, com acessórios e emplacamento
BA tabela de referência do dia do sinistro, corrigida pelo fator de ajuste
CA soma das parcelas do financiamento já pagas ao banco
DO valor da tabela no mês em que a apólice foi contratada

Defenda seu título de Vigia (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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